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Pensão Lisbonense

Águas correntes, quentes e frias.

Pensão Lisbonense

Águas correntes, quentes e frias.

morrer de ser português

Não sei bem a propósito do quê, mas lembrei-me do falecido Agostinho - desse outro que estão a pensar lembro-me com muito mais frequência -...

 

... do Joaquim Agostinho, extremadurenho dos três costados, campeão de ciclismo com prémios acumulados em seis anos sucessivamente e que, em 1987 e aos 41 anos foi, como diría o povo de um portugal medieval: (...) desagraciar pera o reino dos algarves...

 

... e foi mesmo.

 

Um destino de (e com) cão...

 

A luz não ajudava e o campeão, cansado, não diferenciou o pequeno animal que subrepticiamente se lhe atravessou na pista...

o animal sobreviveu - pelo menos até ser apanhado hora e meia depois por uma junta popular (já lá vamos) -, o campeão não.

Com o cão foi mais simples; o povo esquece mas não perdoa...

E tão primitivos somos como povo, que me poupo a escrever o sucedido acrescentando apenas que não foi rápido.

 

Com o campeão foi mais complicado...

 

Passo a explicar: após a fatídica queda, o campeão ergue-se, tonto mas sem ferimento aparente, e resolve voltar a montar...

Não é à toa que passou a ser agraciado pelo povo como o "Hulk" (para além das semelhanças que lhe encontraram, também trajava a túnica leonina).

 

Ao contrário do que acima disse, o povo até perdoa mas não esquece.

 

O campeão muito aturdido, parou, desmontou e - diz-se -, foi por meios próprios entregar-se à âmbulância que o esperava.

 

E porque é que não esquece? o "Hulk" era o campeão...

Ouvi um dia avulsamente num taxi "... o Agostinho devia ir para o panteão, para junto da Amália e do Dr. Salazar que deus tenha! O Agostinho morreu de ser português!!!".

 

O Agostinho morreu de ser português.

 

Pois foi... o Agostinho, de facto, não morreu da queda, mas de ser português.

 

O que se passou a seguir foi a âmbulancia conduzir de imediato Agostinho a uma pensão em Quarteira - sim, uma pensão - onde permanecerá "para descanso", com o crâneo envolto em gelo, fornecido gratuitamente pela pensão.

 

E ali permanecerá por cerca de duas horas até ser levado para o hospital distrital que identifica a razão do cansaço do campeão: uma fractura do parietal.

É desta feita transportado para Lisboa onde, após 4 horas e 400km de viagem, é depositado já inconsciente na competente entidade acolhedora.

 

Esta pequena síntese tenta ilustrar que a causa da morte foi a queda...

Mas o resto não.

 

O campeão não morreu da queda mas de um longo e involuntário passeio pelo sul - e depois de sul para norte - do país...

 

Não há qualquer moral nesta história.

 

É a história da partida de um campeão, de forma tão ligeira e, acrescentaria, tão pouco desportiva.

 

O que nos conduz à conclusão de que destino igual ou pior que o do cão, é o de se morrer de ser português.

 

Chegou a constar - não me recordo da fonte, do quando nem do onde - que o Agostinho, parco no uso de palavras porque era sobretudo um homem de acção, ainda balbuciou à senhora que o acompanhou à ambulância:

 

"Sabes se o Paulo bem?"

 

Isto dito com a sua carregada pronúncia, de um sibilino beirão que rapidamente converte vogais como o "s" numa gama de sonoridades características.

 

Consta que nunca ninguém percebeu o significado da derradeira pergunta, naquele fatídico dia de Abril.

 

O campeão pedalou para o outro lado incompreendido.

 

 

 

 

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