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Pensão Lisbonense

Águas correntes, quentes e frias.

Pensão Lisbonense

Águas correntes, quentes e frias.

morreu o Leonel...

soube há uns dias da morte do leonel, colega de escola e amigo que não via - e não vou voltar a ver - há vinte anos.

 

a primeira reacção foi perguntar o como... como foi?

 

"... foi do (...)"

 

de onde foi não interessa porque aquilo que se deveria pensar é o porquê, porquê ele e não outro, ou porquê ele e não eu...

 

e aí, nesse momento e nas nossas cabeças, tudo é vida e vontade de viver.

 

Eu, se não me tivessem dado a notícia, lembrar-me-ía do leonel por dois motivos; um porque vivia por cima de um apartamento que frequentei, o outro porque com facilidade debatíamos grosseiramente sobre tudo, acrescido do facto de que eu já desenhava... e o leonel gramava imenso os desenhos.

 

Longe da sofisticação da bic e do moleskine - que hoje em dia dá um patois, quando em mão habilidosa - o desenho era então desapiedado e tosco: martelado nos clássicos cadernos de 25 linhas - que davam para tudo, ou quase tudo - por uns desapiedados molin, que eram os cavalos de batalha dos marcadores importados (da Marinha Grande).

Ali, no papel, eram massacradas todas as figuras adversas, sobretudo professores de liceu ou agentes de todo o tipo de autoridade...

 

... de forma mais discreta, embora por vezes com a subtileza de um pneu michelin, uma empregada de liceu de etnia cigana e que me deixava na altura, em modo blood simple como diria um amigo texano...

... não sei se o cabelo preto, se os olhos ou o cheiro de fogueira, mas com ela desenhava a cores e andava com uma caixa de seis molins no bolso.

 

(Nota: andava sempre com o fundo do bolso direito das calças com marcas de tinta que por sua vez transmitia copiosamente à cueca e à própria região sub-lombar... lá voltaremos.).

 

O que resultava do desenho a côres não sei - na altura não sabia que era daltónico porque nessa altura viviamos num portugal onde tudo era preto e branco -, mas o leonel não só os gramava como me ficou com alguns...

 

O leonel morava com o pai e o irmão num apartamento sob o qual se localizava um segundo apartamento - vazio e propriedade da família de um outro amigo que gentilmente me facultava a chave -, para o qual levava a A (não por artifício de escrita mas por mero anonimato).

 

Nunca me cruzei com ele lá e a A passou a tratar-me por pimpinela escarlate - sem sponsorship da molin -.

 

Já o pai do leonel me tratava por vizinho, e com ele nunca me cruzei...

...também na altura para perícias destas era quase requerido brevet de força especial... um tipo aprende mesmo a mexer-se nas sombras e no silêncio.

 

O leonel era distraído mas sempre com um humor oportuno e de uma acutilância comparável à de uma guillotine.

Era de se torcer o guardanapo, ainda dito no português corrente.

 

Saltava do registo bossal e vulgar para a mais delicada das formas.

 

Juntos baptizámos um colega de Little Big Horn.

 

Num contexto onde a tradição parcimoniosa - diría mesmo de comedição - ainda ditava a economia eramos económicos até nas alcunhas ou, continuando a reduzir, nos diminutivos...

 

Os setenta viram o nascimento do diminutivo dos Tós e dos Zés (ambos monossilábicas com acentuação tónica);

Os  oitenta viram os Tó-Zés, ou os Tonís (dissílabo com acentuação em ambas ou numa das sílabas apenas).

 

Não se fugia disso.

 

Ora nos anos oitenta, conferir uma alcunha polissilábica - ou mais complexa do que isso - era de um acto de vanguarda.

Ainda mais numa lingua estrangeira - por incrível, tudo na altura com localização acima do mondego ou abaixo do tejo era estrangeiro, como se vivessemos numa ilha.

 

Little Big Horn

 

Simples e aproriado.

O tipo era um rufia e toda a argumentação era muscular, até à data e sem excepção.

 

Na sua muscularidade cerebral - tal como o músculo, o cérebro também se exercita - instantaneamente se juntaram o glam de um termo inglês ao significado da expressão, ampla e devidamente divulgada.

 

Little Big Horn, o olímpo da cultura alimentada aos domingos pelos Roy Rogers, Lone Rangers e Bonanzas...

 

Novamente me lembro que, para nós e na altura, era como se a europa em redor fosse só habitada por índios ou, mais a norte, por suecas - de valor didático incalculável -.

 

Para ele a alcunha tinha o signigicado de um produto cultural bem assimilado; distinta (polissilábica) e carismática (a figura do Custer era, sobretudo, muito apreciada).

 

Não há semiótica que ajude a uma interpretação disjuntiva simples.

 

Little Big Horn significava para nós só e literalmente: Pequeno+Grande+(mas sobretudo) Corno

 

O tipo era de maus fígados - gere actualmente uma agência de seguros -, mas injustamente tinha as namoradas mais giras, pese embora e felizmente por pouco tempo, tendendo o desfecho a justificar a aplicação do terceiro substantivo.

 

Ficou no fim o desenho dele com um capacete viking.

 

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