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Pensão Lisbonense

Águas correntes, quentes e frias.

Pensão Lisbonense

Águas correntes, quentes e frias.

O Choque Assimétrico

 

A reunião vai ser no mínimo interessante, pensei eu no regresso ao pasquim.

 

Apesar de uma falha tecnológica ter impedido a sincronização de agendas e obrigado a voltar ao quarto para mudar de indumentária, estava particularmente entusiasmado. O tema financiamento de investimentos e a respectiva reunião com o banco “chefe de fila” do sindicato bancário é algo que não poderia faltar. Isto tanto pela oportunidade e necessidade da mesma, como pelas conversas laterais que se têm sempre nestes encontros.

 

Aprende-se sempre alguma coisa com aquela gente, pensei.

 

Quanto mais não seja, toma-se conhecimento dos mexericos habituais sobre as dificuldades de financiamento dos bancos nos mercados interbancários, agravado pelo apetite voraz do Estado Português para se financiar, esvaziando os fracos plafonds disponíveis para financiar os restantes agentes económicos. Enfim, coisas de trabalho que interessam directamente a todos mas que só alguns têm de se preocupar, felizmente.

 

Entrei no pasquim e estava a barraca instalada. Grande confusão! Até o cão grunhia.

 

Aproximei-me em passo acelerado para ver o que se passava sem dar muito pela minha presença ou interesse. Tinha de ser rápida esta mudança de roupa, não faço ninguém esperar por mim, é um princípio basilar. Além do mais, muita confiança e abertura costumam, geralmente, ser mal interpretadas, confidenciei. Há gente que precisa de sentir distância para serem melhores pessoas. Lamenta-se mas é assim a natureza humana, não há nada a fazer.

 

En passant percebo a que a Dona Simplícia, mãe da "femme de ménage", foi despedida.

 

Gente humilde, trabalhadora mas com muito débil formação e educação, isto para ser simpático com a senhora, Dona Simplícia trabalhava na fábrica de porcelanas situada paredes meias com o pasquim. Empregada de limpeza dos escritórios, tinha naquela actividade sua principal fonte de sustento. Umas horas no pasquim a ajudar a filha, adicionados à venda de uns produtos agrícolas produzidos no seu pequeno quintal, complementavam os fracos rendimentos auferidos.

 

Continuei rumo ao quarto a pensar na situação daquela família, do flagelo que é o desemprego e na crónica anunciada da morte de um sector importante do nosso tecido industrial. Subir até ultimo andar a pé é um exercício que dispensava, relembrei mais uma vez!

 

Sim porque tudo isto se sabia e há muito tempo, contudo, pouco ou nada foi feito. Teorias e teóricos há-os para todos os gostos. Na economia há-os para explicar tudo e o seu contrário sendo contudo mais especializados em dar “prognósticos no fim do jogo”. Influências do futebol, certamente. Agora políticos com visão e projectos e empresários com formação e empenho, isso é que há poucos.

 

Mas o problema não é exclusivamente português! Onde está a culpa? Há solução para isto?

    

Dada a minha formação de base, não querendo de forma alguma distanciar-me dos meus semelhantes, enquanto despia a indumentária tipo “casual Friday” que faço questão de usar neste dia da semana, arranjei rápidas e múltiplas justificações para o problema e drama vividos por aquela gente.

 

Estamos certamente a sofrer a influência de uma União Económica e Monetária mal estruturada pois falta um orçamento comunitário para suportar desajustamentos provocados por choques assimétricos. Os Estados unidos têm, recordei enquanto escolhia a gravata adequada. Soares acha que faltam lideres europeus dignos desse nome - esta fica bem, azul, dá com o fato - nunca votei no senhor mas sou levado a dar-lhe razão. Incongruências clubísticas, constato eu cá para os meus botões. 

 

Recordei também o velho Mundell e a sua teoria sobre as Zonas Monetárias Óptimas e a necessidade de um Banco Mundial efectivamente actuante na determinação das políticas monetárias e cambiais. Tudo muito bonito mas impraticável, obviamente – meias e sapatos escuros, claro!

 

Da necessidade de uma politica que permita a efectiva mobilidade dos recursos humanos. Vai lá vai! Mesmo na América do Norte a mobilidade do trabalhador é considerada rígida face às reais necessidades da economia, quanto mais numa Europa com uma plêiade de línguas e dialectos e energúmenos Sarkozys – aquela do “arrete” está gira.

 

Será dos efeitos da globalização e da abertura das fronteiras afectando os países desenvolvidos, ao contrário do que os verdes e outros coloridos andam constantemente a fazer-nos crer? Sim porque constata-se que o Brasil, Rússia Índia e China estão com crescimentos interessantes, ouve-se dizer.

 

Há nestes países um clima de optimismo e de alguma prosperidade. Pergunte-se a quem anda nestes destinos. Não chega a todos nem em doses iguais, obviamente. Há gente nestes países e noutros, com níveis de pobreza assinaláveis mas parece que, acima de tudo, chegou a nossa vez de sofrer um pouco. Pelo menos alguns. Esta crise está para ficar, dizem os “Velhos do Restelo”. Dado o que vejo e por prudência, sou obrigado a calar-me.

 

Infelizmente sofrem sempre os mais fracos, pensei eu a descer as escadas em direcção ao hall e à viatura, ainda com o Hicks, Walras, Schumpeter, Keynes e Phelps a atormentarem-me o espírito e a toldarem-me o raciocínio – devia ter posto o relógio mais pipi. Este também não fica mal. Subir isto mais uma vez é que não!

 

Já no hall vejo que no exterior está uma equipa de reportagem a falar com a dona Simplícia. Teme-se o pior!

 

Aproximo-me do “circo” que se encontra montado no exterior da fábrica e recordo uma conversa com um inginheiro nosso consultor que, queimado por uma noticia “encomendada” por um seu concorrente comentou com algum sarcasmo “este jornalismo moderno anda a precisar de uma reengenharia de processo”.

 

Sempre em passo acelerado pelos motivos supra aproximo-me curioso com a explicação que a minha estimada amiga Simplícia tem a dizer sobre as causas desta crise e dos motivos para o seu fatal despedimento

 

 

 

Mais ou menos na mesma, sigo impávido para a reunião com os outros salafrários sem saber muito bem quem culpar, se o elevado endividamento, o Chinês, o Keynes ou a alternativa sugerida.

 

Socrates NÃO!

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