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Pensão Lisbonense

Águas correntes, quentes e frias.

Pensão Lisbonense

Águas correntes, quentes e frias.

... a dog day afternoon (II)

Algures em Julho de 2010, Mediterrâneo leste, 39º e uma humidade relativa que, muito provavelmente - e para mim -, fará da memória do pea-soup londrino um reles consomé...

 

Nota: talvez por isso a latinidade condensasse o conceito de calor na palavra caldo.

 

O sítio, uma cidade onde ainda se retrata o efeito do passe-vite - aparelho metálico cónico e de manivela, com dimensões médias e que serve para triturar bofes nos talhos - urbanístico que é a guerra.

 

Se porventura a tivesse de desenhar começaria por uma linha horizontal baixa e outra paralelamente em cima irregularmente destruída, que é um efeito que se consegue também com esferográficas bic...

A segunda linha ia ser sincopada como num electrocardiograma de choque embora com os diferenciais reduzidos, pois é uma cidade ao baixo (é que também delas há ao alto)...

 

Ninguém gosta destas segundas linhas, pois são as linhas que, quando retratam destruição, desenham sobretudo ausências.

O mundo ocidental está muito mais cosido ao optimismo das linhas verticais.

 

Pois penso que em cidades altas ou baixas, actos de destruição vertical ou horizontal são o mesmo e só o seu desenho difere.

 

Ali, num plateau desértico e num sítio determinado, lembro-me de que as únicas verticais eram construídas pelas estelas de um pequeno cemitério.

Ao contrário da St. Paul's churchyard, este não ficou sem redor: a cidade quase desapareceu e, por vontade de alguns, tería mesmo desaparecido.

 

Talvez lá volte.

 

Shamballah, September 15th, 2010 year of Our Lord

 

 

 

P.S. - foi-me pedido há uns anos que escrevesse sobre destinos turísticos de interesse arquitectónico e urbanístico.

 

A quem não tiver problemas de vaporização recomendo Beirut.

 

Para além de toda uma solidez cultural tão firme como a de Baalbek (34º0'25"N 36º12'14"E) - património ameaçado pela Unesco desde 1984 -, estão também lá as mais bonitas mulheres do planeta - acrescentaria mesmo da via láctea - e que também falam inglês, por sinal.

 

E há muitas semelhanças.

 

Por exemplo, há um termo em arabesco que designa de calçado de dedo a nossa vulgar sandália.

Julgo que este é ainda um conceito inédito no contexto cultural e humorístico da velha europa setentrional, embora cá o recurso à sua interdição em festas seja também frequente por cá.

 

Mas há diferenças...

 

... cá, há um azar a partir das oito da noite e dorme-se com ele até às nove da manhã seguinte...

lá, encontram-se uns genuinos puma nos souk às quatro da madrugada e evita-se ter de pedir emprestadas as botas ao porteiro.

 

Não sei se sabem que - ao contrário da opinião dos norte-americanos e pelo menos nos contextos urbanos que conheço -, o humor árabe existe e em muito o nosso lhe deve em termos de limite e comedição, pelo que recomendo levarem os puma já calçados.

 

Os 9.8 da TimeOut são merecidos.

 

A quem sofrer de vaporização... pois também se vende por lá água e - em minha opinião - também essa de boa qualidade.

 

Essa mesma ideia poderá ser confirmada pelo relatório Quality Assessment of various Bottled Waters marketed in Lebanon, publicado pela Earth Environmental Sience e redigido pela famosa autora Lucy A. Semerjian.

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