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Pensão Lisbonense

Águas correntes, quentes e frias.

Pensão Lisbonense

Águas correntes, quentes e frias.

sapos

 

(...) Fiquei a olhá-lo, estarrecida por a loja de brinquedos didácticos, a loja onde eu me preparava para comprar um globo para ensinar ao meu filho mais novo a paz entre os povos da terra, ter à entrada um sapo para escorraçar a ciganagem, esses malandros que não assimilam a decência da pobreza: compram playstations aos filhos e bolicaos com o rendimento mínimo social. Olhei a dona da loja pela última vez. Continuava a sorrir-me. Sempre a sorrir. Posso estar enganada, estou-o muitas vezes, mas tinha pinta de ser uma daquelas mães de esquerda – punha as mãos no fogo em como vota no bloco de esquerda - e tem os filhos, motivadíssimos, estimuladíssimos, espertíssimos, no colégio moderno.

Vitórias antigas

 

 

 

Era uma noite de domingo calma, como muitas outras. Mas à medida que os ponteiros dos relógios se afastavam das 23 horas naquele já longínquo dia 27 de Março de 1988, as sedes em Lisboa das duas centrais sindicais, CGTP e UGT, enchiam-se de gente. Uns de partida para as primeiras visitas-relâmpago aos piquetes, sobretudo nos transportes, outros a ocupar-se dos telefones, outros ainda a procurar um fio lógico num emaranhado de comunicados, notas avulsas, telexes (não havia ainda Internet nem telemóveis).

 

Nuno Pacheco, Público

Black Flop

 

 

Encerrada a cimeira, sobra uma questão. Onde é que andaram os Black Bloc afinal? Tanto trabalho a embrulhar a montra da Prada e o logotipo do McDonalds, a retirar as pedras da calçada soltas na Avenida e depois esta desfeita. Parece que não havia um para amostra. A polícia afirma que os prendeu a todos na fronteira, e os organizadores garantem que eles não tiveram dinheiro para viajar para Portugal. Há aqui qualquer coisa errada. Ou os temíveis Black Bloc de fatiotas pretas e gorros na cara que costumam dar cabos das cidades à pedrada não chegam a 200 (número de moços anti-NATO retidos na fronteira segundo a contagem do Serviço de Fronteiras e Estrangeiros) ou então a crise já os apanhou também e não havia dinheiro para a viagem até ao canto da Europa. Mas, esperem, há aqui outra coisa estranha: nas manifestações não é costume a organização exagerar o número de participantes e a polícia desvalorizar? 

 


Deram cabo da liberdade, pá

 

 

 

Mas eu ainda estou a viver no mesmo país? Em meia dúzia de dias desfizeram as minhas crenças de nascida no pós-25 de Abril. Proíbem manifestações, a livre circulação, embirram com t-shirts e a roupa preta, prendem pessoas nas fronteiras e nas ruas, censuram crónicas.

 

Deram cabo disto tudo enquanto o diabo esfregou um olho.

 

 

 

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